"Ensaio" Antropológico - ETNOCENTRISMO E SALA DE AULA – FATORES QUE DIFICULTAM UM OLHAR RELATIVISTA
“Aquele Aluno? Não percebeu que ele veio lá de cima? Que ele tem a cabeça chata?”
A cena vivida no diálogo acima bem que poderia ser algo ficticio, que serviria somente para ilustrar o tema etnocentrismo neste presente trabalho, porém, isso é vivido diariamente nos corredores escolares e reproduzido em nossas salas de aula.
O que causa esse preconceito? O que leva um ser que teoricamente é mais provido de conhecimento ter atitudes tão repugnáveis e, ao mesmo tempo, tão aceitas em nossa sociedade? Para entender isso, precisamos, primeiramente, entender qual a razão deste preconceito e as dificuldades impostas pela própria sociedade para que esta situação não perdure em nosso meio.
A partir de agora substituiremos a afirmação Preconceito por um termo muito usado na antropologia, Etnocentrismo. Entende-se que o etnocentrismo “[...]é uma atitude na qual a visão ou avaliação de um grupo social sempre seria baseada nos valores adotados pelo seu grupo, como referência, como padrão de valor. Trata-se de uma atitude discriminatória e preconceituosa. Basicamente, encontramos em tal posicionamento um grupo étnico considerar-se como superior a outro.” Ou seja que nossas referências são parâmetros para definir quais são os grupos importantes e que são os que devem servir de modelo (cultural, econômico, social) para os demais grupos.
A escola não leva em consideração a riqueza da diversidade e não reproduz a importância de se conviver com tais diferenças. A possibilidade de incorporar a cultura do próximo é algo impensável e o que se costuma fazer, no ambiente escolar, é segregar ainda mais essa questão e aprofundar as questões etnocentricas.
O presente ensaio tem por objetivo apontar estas atitudes etnocêntricas e buscar o relativismo no olhar do educador e do educando, visando um entendimento real entre as duas partes do processo educativo.
ETNICIDADE
Quando utilizamos o termo ‘etnicidade’ precisamos contextualizá-lo históricamente e para isso precisamos citar o sociólogo norte-americano David Riesman que publicou, em parceria com Reuel Denney e Nathan Glazer, um livro chamado The Lonely Crowd onde ele expõe o conceito de etnicidade, onde as relações de hierarquização estão ligadas fundamentalmente com os conceitos de etnia e não com as posições políticas e sociais de um grupo ou indivíduo. O poder etnico sobrepõe os demais poderes.
“A palavra etnia é usada muitas vezes erroneamente como um eufemismo para raça, ou como um sinônimo para grupo minoritário. Embora muitas vezes os dois conceitos estejam associados, a diferença entre ambos reside no fato de que etnia compreende os fatores culturais, como a nacionalidade, a afiliacão tribal, a Religião, a língua e as tradições, enquanto raça compreende apenas os fatores morfológicos, como cor de pele, constituição física, estatura, traço facial, etc.
Desta forma, um indivíduo negro, brasileiro e não-quilombola, pertence à etnia brasileira, surgida a partir do encontro das inúmeras culturas que povoaram o país, embora pertença à Raça negra. Um indivíduo pertencente aos Pancararus, povo indígena brasileiro, pode ser de raça ameríndia, negra ou de ambas, embora sua etnia (ou povo) será sempre a pancararu. Indivíduos de comunidades européias ou orientais isoladas do Brasil também costumam ser classificados ou mesmo se auto-definirem como da mesma etnia de seus ancestrais, mantendo hábitos e tradições típicas destes, ao invés das tradições do brasileiro comum. O mesmo já não costuma acontecer com os mesmos descendentes de europeus ou asiáticos que passam a residir em meio aos brasileiros comuns, em grandes metrópoles e bairros mistos, que embora sejam em geral de raça branca ou oriental, não se identificam com etnias européias ou orientais, mas sim com a brasileira.”
O que acontece dentro das salas de aula é que o professor não leva em conta as peculiaridades das diversas raças e, em contrapartida reforça negativamente as diferenças e ridiculariz o diferente (o negro, o nordestino, o obeso, o inteligente) sobrepujando um em relação ao outro. Quando uma atitude etnocentrica é observada, o observador sente dificuldade em agir contra o que aconteceu, pois, geralmente uma atitude etnocentrica vem seguida de uma atitude autoritária que ridiculariza e prostra o sujeito que foi alvo deste tipo de atitude.
No Brasil, o etnocentrismo é sublimado pelo humor, que culturalmente é uma relação paradoxal entre o que é politicamente (e legalmente) certo, e o que é errado. Nas salas de aula, esse “humor” fica evidenciado quando um professor usa de tais artifícios para olhar o aluno de forma preconceituosa e relativizar as situações, tomando o diferente como explicação para uma possível falta de intelectualização formal do aluno, trocando em miúdos, determinado aluno tem dificuldade na aprendizagem porque é nordestino, é feio porque é negro, não merece respeito por ser homossexual.
DIFICULDADE EM RELATIVIZAR OS OLHARES
" Se fosse dada a alguém, não importa a quem, a possibilidade de escolher entre todas as nações do mundo as crenças que considerasse melhores, inevitavelmente... escolheria as de seu próprio país. Todos nós, sem exceção, pensamos que nossos costumes nativos e a religião em que crescemos são os melhores... Existe uma multiplicidade de evidências de que este sentimento é universal... Poderíamos lembrar, em particular, uma anedota de Dario. Sendo ele rei da Pérsia, chamou alguns gregos presentes em sua corte e perguntou-lhes quanto queriam em troca de comer os corpos de seus pais defuntos. Os gregos replicaram que não havia dinheiro suficiente no mundo para fazer isso. Depois perguntou a alguns índios da tribo chamada Callatie - que realmente comem os corpos de seus pais defuntos - quanto queriam para queimá-los (referindo-se, é claro, ao costume grego da cremação). Os índios exclamaram horrorizados que nem se devia falar em coisa tão repugnante” (Heródoto)
Em nossa sociedade há a dificuldade em relativizar o olhar sobre as diversas manifestações culturais e sociais porque ainda estamos intimamente ligados ao conceito de superioridade européia, que regeu as nossas ações durante todo o processo de colonização de nosso país. O branco europeu sempre foi o mais forte nessa relação, relação como índio, primeiro ‘dono’ da terra e com o negro africano, que veio ao nosso país apenas para servir a esse branco todo-poderoso.
Não adianta que o nosso olhar continue crítico para essas atitudes se não houver uma capacidade maior de enfrentar tais posturas, de indicar caminhos possíveis, de enfrentar toda uma sociedade etnocentrica. Isso nos levar a pensar em outras razões pelas quais não tomamos essa atitude no dia a dia.
Até que certo ponto, as pessoas que sofrem de atitudes etnocentricas percebem nessas atitudes uma forma de segregação? As pessoas estão preparadas para assumir essa etnicidade?
Particularmente, sinto receio em tratar esse assunto no meio em que vivo (a sala de aula), pois a simbiose entre os atores deste processo, se torna uma ferramenta maliciosa e deveras perigosa neste processo, já que não dá para mensurar a capacidade de informações já arraigadas por esses atores para que haja uma mudança no olhar, não mais generalizado no foco, mas sim nas potencialidades que este foco há de nos mostrar. Em suma, como levar o afro-descendente assumir a sua etnicidade (negritude), se ele não assumiu essa postura internamente? Se a sua comunidade não assumiu sua etnicidade? Se o conceito de africanidade só serve em conhecimentos cinetíficos ou para um pequeno grupo de militantes pela causa? Como levar o nordetisno a militar sobre a sua cultura e a riqueza que ela nos tras? Essas questões não precisam de respostas imediatas, mas sim de uma discussão plural entre todos, em busca da criação de uma identidade só, da identidade brasileira, que deve passar, obrigatoriamente nos bancos escolar e não servir de reprodução dos conceitos etnocentricos que visam o eterno limiar entre o que é correto (conhecimento europeu) e o que é errado (a nossa identidade).
Ai se sêsse
Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse a porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tavés que nois dois ficasse
Tavés que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse
Poeta: Zé da Luz
BIBLIOGRAFIA
ROCHA, Everardo Guimarães. O que é Etnocentrismo? São Paulo. Brasiliense, 2007, Coleção Primeiros Passos. 124 páginas
RIBEIRO, João Baptista Cintra. O Olhar. Texto
http://www.mw.pro.br/mw/p04_03_05.pdf
http://pt.wikipedia.org/wiki/Etnocentrismo